Água de Colônia


Eram 9:15 da manhã quando o telefone de casa tocou. A empregada, receosa de acordar-lhe após ter passado em claro a última noite, bateu levemente na porta da suíte. Ele levantou-se, atendeu ao telefone e, tendo respondido com pouquíssimas palavras, devolveu o aparelho ao gancho, meneou a cabeça e se retirou em silêncio.
Tomou um banho morno bem demorado, vestiu a camisa azul listrada que sua esposa lhe deu de presente no último Natal, calça social clara, cinto e sapatos combinando. Já na porta do quarto, colocou o relógio prateado no pulso, espalhou no pescoço, no punho e nos parcos cabelos brancos algumas gotas da Água de Colônia que, ao longo dos últimos 32 anos, arrancava suspiros da sua amada. 
Por fim, pegou sobre a cômoda branca um ramalhete de flores, já um tanto murchas, que repousava em um vaso de cristal. Então dirigiu-se ao hospital para despedir-se de sua companheira de vida, que havia partido naquela manhã.      

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