Soul Minha
Assim poderia começar a contar a história do meu corpo: uma criança que
sonhava com uma plástica no nariz, que lhe diziam ser de porquinho, quando
recebesse o salário do primeiro emprego. Ou com a adolescente que sempre vestia
calça por vergonha das pernas finas, sobre as quais lhe falavam que quebrariam
a qualquer instante. E por que não com a garota que, pelo hábito de se recusar
a comer por dias seguidos, cresceu ouvindo da família que não passaria dos
quinze anos?
De certa forma,
eles estavam certos. Aos quatorze, a garota esguia, que brincava de boneca, foi
vítima de pedofilia e viu sua reputação e autoimagem serem pisoteadas ao levar
a culpa pelo ocorrido, peso que carregou calada por vários anos, acreditando
ser seu. Dali em diante suas emoções ficaram congeladas: em todos os seus sonhos,
independente da idade que tivesse, a aparência não passava de quinze, e quando
acordada não conseguia se ver mulher, era sempre a mesma menina.
Aos vinte e três,
a igreja onde congregava lhe proibia o sexo com o namorado. Até que, aos vinte
e cinco, já casada, a mesma igreja passou a lhe impor o sexo como forma de
guardar o seu casamento. Os anos se passavam, o estado civil mudava, mas o
espelho continuava refletindo a menina que desde a infância aprendeu que não
era dona de seu próprio corpo.
Até
que um dia, em uma cama que não era sua, se descobriu mulher, com novos
desejos, curiosidades e sonhos. Ali, diante daquele espelho, nascia uma mulher
intensa que não se satisfaz com pouco, mais ou menos ou tanto faz, e sabe que é
a única dona de seu corpo e de sua alma. Mulher que quer química, física e
matemática, pele, pêlo e saliva.
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